quinta-feira, 31 de março de 2011
Perder a viagem
"Você pede ao patrão para sair mais cedo do trabalho, pega um ônibus lotado, vai para um consultório médico que fica no centro da cidade, gasta seus trocados, seu tempo e seu humor, e, ao chegar, esbaforido e atrasado, descobre através da secretária que sua hora, na verdade, está marcada para semana que vem. Sinto muito, você perdeu a viagem.
Todo mundo já passou por uma situação assim, de estar no lugar errado e na hora errada por pura distração. Acontecendo só de vez em quando, tudo bem, vai pra conta dos vacilos comuns a qualquer mortal. O problema é quando você se sente perdendo a viagem todos os dias. Todinhos. É o caso daqueles que ainda não entenderam o que estão fazendo aqui.
Estão perdendo a viagem aqueles que não se comprometem com nada: nem com um ofício, nem com um relacionamento, nem com as próprias opiniões. Estão sempre flanando, flutuando, pousando em sentimento nenhum, brigando por idéia nenhuma, jamais se responsabilizando pelo que fazem, pois nada fazem. Respirar já lhes é tarefa árdua e suficiente. E os dias passam, e eles passam, e nada fica registrado, nada que valha a pena lembrar.
Estão perdendo a viagem aqueles que, em vez de tratarem de viver, ficam patrulhando a existência alheia, decretando o que é certo e errado para os outros, não tolerando formas de vida que não sejam padronizadas, gastando suas bocas com fofocas, seus olhos com voyeurismo, sem dedicar o mesmo empenho e tempo para si mesmo.
Estão perdendo a viagem aqueles preguiçosos que levam semanas até dar um telefonema, que levam meses até concluir a leitura de um livro, que levam anos até decidir procurar um amigo. Pessoas que acham tudo cansativo, que acreditam que tudo pode esperar, que todos lhe perdoarão a ausência e o descaso.
Estão perdendo a viagem aqueles que não sabem de onde vieram nem tentam descobrir. Que não sabem para onde ir e nem tentam encontrar um caminho. Aqueles para quem a televisão pode tranqüilamente substituir as emoções.
Estão perdendo a viagem aqueles que se entregam de mão beijada às garras do tédio."
Martha Medeiros
quarta-feira, 30 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
NEW YORK,NEW YORK- FRANK SINATRA
Comece a espalhar a notícia,
Estou partindo hoje.
Eu quero ser parte dela,
Nova Iorque, Nova Iorque.
Estes sapatos de vagabundo,
Estão desejando passear
Exatamente através do coração autêntico dela,
Nova Iorque, Nova Iorque
Eu quero acordar na cidade
Que nunca dorme,
E descobrir que sou o rei do pedaço,
O maioral.
Estes blues de pequenas cidades do interior
Estão longe do enternecimento.
Eu farei um novo recomeço nela,
Na velha Nova Iorque.
Se eu conseguir lá,
Eu farei em qualquer parte.
Só depende de você,
Nova Iorque, Nova Iorque.
Nova Iorque, Nova Iorque.
Eu quero acordar na cidade
Que nunca dorme,
E descobrir que sou o número um,
No topo da lista,
Rei do pedaço,
O número um.
Estes blues de pequenas cidades do interior
Todos estão longe do enternecimento
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Suspirando de saudade do céu e do mar de Veneza...
A saudade que estou sentindo de Veneza me fez querer partilhar duas das coisas que mais amo na vida: História e viagem...
Veneza é uma das cidades mais belas que já visitei e a Ponte dos Suspiros é um dos ´lugares mais visitados.
O nome "Ponte dos Suspiros" nos sugere uma história romântica, mas não foi nenhum romance que deu origem ao nome de uma das pontes mais fotografadas de Veneza, juntamente com a Ponte Rialto.
Na verdade, a pequena ponte, construída em 1602, ligava as salas de interrogatorio do Palácio Ducal à prisão que ficava no prédio que podemos ver à direita. Nos subterrâneos da prisão existiam masmorras que, com frequencia, eram alagadas pelas marés. Era um lugar de dor, sofrimento e morte.
As pessoas alí encarceradas eram conduzidas ao tribunal do Palácio Ducal para serem julgadas, e depois executadas, através da pequena ponte suspensa.
Conta-se que a passagem pela ponte era a última oportunidade que os prisioneiros tinham de ver, ainda que rapidamente, o mar e o céu de Veneza, daí os suspiros de tristeza dos condenados.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Encontro com o passado - Que bom não ter mais nada a ver com ele.
"Nem sempre o passado provoca nostalgia. Às vezes, dar de cara com ele só traz alívio.
O sujeito está lá, feliz com a sua vida, quando recebe pela internet a foto de uma ex de olhos siderados, copo na mão, enroscada num cara no meio da balada. Ao ver as formas e o rosto conhecido, ele instantaneamente leva a mão à boca, num gesto de susto e autocomiseração.
Mas isso dura menos de um segundo.
É tempo suficiente para ele lembrar que não tem mais nada a ver com aquilo - que aquele furacão de álcool e extravagância já não é mais da conta dele.
Com um suspiro de gratidão indefinida, ele observa a imagem na tela enquanto lembra que a moça, embora linda e arrebatadora, era uma dor de cabeça que não dói mais nele.
Quem é capaz de se identificar com essa história?
Eu sou. E acho que muitos serão.
Cada um de nós já teve experiências de convívio carregadas de ambiguidade. Você gosta da pessoa, às vezes ama, mas, junto com as coisas que você deseja ou admira nela, percebe traços de personalidade, manias ou comportamentos que são simplesmente insuportáveis. É bom livrar-se deles, embora não seja gostoso separar-se do que você ama nas pessoas.
Eu, por exemplo, não suporto gente intolerante, arrogante, belicosa. Mas já convivi com isso bem de perto, numa pessoa que tinha qualidades admiráveis. Foi traumatizante. Desde que essa relação acabou, faço questão de acordar ao lado de gente com menos certezas e pedras na mão. Tem sido bom assim.
Com as mulheres acredito que acontece o mesmo.
Uma delas me dizia outro dia como foi chegar na casa de um amigo e dar de cara com o ex- namorado embriagado se comportando como um escroto na frente da nova namorada – exatamente como fazia com ela. “Deu raiva dele, deu pena da garota, mas a alegria de estar livre daquilo foi bem maior”, me disse a amiga.
Nem sempre é assim tão claro.
Às vezes o que está errado numa pessoa é como certos barulhos no carro que vão e voltam. Algo está lá, incomodando, mas você não consegue perceber o quê, exatamente. Apenas meses ou anos depois, já na condição de amigo, ou pelo menos de ex, fica claro, repentinamente claro, qual era a origem do ruído.
Você olha para a aquela mulher encantadora e falante e percebe a crônica incapacidade dela em se mover em qualquer direção.
Ou então se dá conta da tristeza, quase depressão, que emana dela e que pairava sobre a relação de vocês como uma névoa.
Ou então nota, por trás da polidez, a insistência dela em falar de si mesma, como se ninguém mais importasse.
Ou a frequência exasperante com que ela menciona fulano, um antecessor que já era antigo ao seu tempo, mas que parece não ter sido esquecido.
Nessas ocasiões, a gente entende por que acabou, por que não deu certo, por que não tinha de ser.
O tempo ajuda a perceber sutilezas. Ele nos ajuda a ver através das pessoas e raramente o mito delas resiste a esse olhar objetivo e desapaixonado.
É bom que seja assim.
Se o seu ex era um controlador ególatra ou um quarentão indolente que precisa de mãe, é importante perceber. Ajuda a olhar para frente. Faz com que a vida ande. Permite entender que as coisas que aconteceram no passado tinham lá seus motivos.
Permite olhar para a foto da ex na internet e dar uma boa gargalhada - sem o menor sentimento de perda."
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras na revista Época)
Já namorei um quarentão indolente do tipo filhinho da mamãe e um controlador ególatra que tinha um tique esquisito de fazer uns ruídos estranhos com a boca... Uffa!!! Olho pra trás e sinto um baita alívio!!!
PS: Amo as quarta-feiras... Amo o Ivan por sua clareza e genialidade no uso das palavras.
O sujeito está lá, feliz com a sua vida, quando recebe pela internet a foto de uma ex de olhos siderados, copo na mão, enroscada num cara no meio da balada. Ao ver as formas e o rosto conhecido, ele instantaneamente leva a mão à boca, num gesto de susto e autocomiseração.
Mas isso dura menos de um segundo.
É tempo suficiente para ele lembrar que não tem mais nada a ver com aquilo - que aquele furacão de álcool e extravagância já não é mais da conta dele.
Com um suspiro de gratidão indefinida, ele observa a imagem na tela enquanto lembra que a moça, embora linda e arrebatadora, era uma dor de cabeça que não dói mais nele.
Quem é capaz de se identificar com essa história?
Eu sou. E acho que muitos serão.
Cada um de nós já teve experiências de convívio carregadas de ambiguidade. Você gosta da pessoa, às vezes ama, mas, junto com as coisas que você deseja ou admira nela, percebe traços de personalidade, manias ou comportamentos que são simplesmente insuportáveis. É bom livrar-se deles, embora não seja gostoso separar-se do que você ama nas pessoas.
Eu, por exemplo, não suporto gente intolerante, arrogante, belicosa. Mas já convivi com isso bem de perto, numa pessoa que tinha qualidades admiráveis. Foi traumatizante. Desde que essa relação acabou, faço questão de acordar ao lado de gente com menos certezas e pedras na mão. Tem sido bom assim.
Com as mulheres acredito que acontece o mesmo.
Uma delas me dizia outro dia como foi chegar na casa de um amigo e dar de cara com o ex- namorado embriagado se comportando como um escroto na frente da nova namorada – exatamente como fazia com ela. “Deu raiva dele, deu pena da garota, mas a alegria de estar livre daquilo foi bem maior”, me disse a amiga.
Nem sempre é assim tão claro.
Às vezes o que está errado numa pessoa é como certos barulhos no carro que vão e voltam. Algo está lá, incomodando, mas você não consegue perceber o quê, exatamente. Apenas meses ou anos depois, já na condição de amigo, ou pelo menos de ex, fica claro, repentinamente claro, qual era a origem do ruído.
Você olha para a aquela mulher encantadora e falante e percebe a crônica incapacidade dela em se mover em qualquer direção.
Ou então se dá conta da tristeza, quase depressão, que emana dela e que pairava sobre a relação de vocês como uma névoa.
Ou então nota, por trás da polidez, a insistência dela em falar de si mesma, como se ninguém mais importasse.
Ou a frequência exasperante com que ela menciona fulano, um antecessor que já era antigo ao seu tempo, mas que parece não ter sido esquecido.
Nessas ocasiões, a gente entende por que acabou, por que não deu certo, por que não tinha de ser.
O tempo ajuda a perceber sutilezas. Ele nos ajuda a ver através das pessoas e raramente o mito delas resiste a esse olhar objetivo e desapaixonado.
É bom que seja assim.
Se o seu ex era um controlador ególatra ou um quarentão indolente que precisa de mãe, é importante perceber. Ajuda a olhar para frente. Faz com que a vida ande. Permite entender que as coisas que aconteceram no passado tinham lá seus motivos.
Permite olhar para a foto da ex na internet e dar uma boa gargalhada - sem o menor sentimento de perda."
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras na revista Época)
Já namorei um quarentão indolente do tipo filhinho da mamãe e um controlador ególatra que tinha um tique esquisito de fazer uns ruídos estranhos com a boca... Uffa!!! Olho pra trás e sinto um baita alívio!!!
PS: Amo as quarta-feiras... Amo o Ivan por sua clareza e genialidade no uso das palavras.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
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